PEDRO CABRAL                                                     fotógrafo

 

Nasce em Moçambique em 1955. Vive a idade adulta em Peniche, onde ganha o pão de cada dia como professor de práticas desportivas. É fotografo desde a Revolução dos Cravos, quando a democracia se instala em Portugal.

Fotografa os efeitos do tempo com um olhar límpido, cândido e abrangente. Cria imagens depuradas de quem olha com ternura o espaço envolvente, situando as coisas que vê muito para além do momento em que são vistas, como se, ao mesmo tempo, as visse pela primeira e última vez. Tendo visto aquilo que viu num período dramático da história, algures numa terra que é a sua, nunca o invoca. Com a mágoa que daí resulta, com o sentir de uma criança, apenas nos dá a ver as feridas que a erosão provoca com o correr do tempo em coisas que o seduzem.

Um outro ilustre professor, André Bazin, amante do bom cinema, alguém que acreditava que o Zé Povinho se emanciparia com mais facilidade se o habituassem a ver coisas de qualidade, afirmava que na origem das artes figurativas, como a pintura ou a escultura, existe um «complexo de múmia». Dizia ele que a antiga religião dos egípcios, reagindo contra a morte, via a sobrevivência do ser humano como algo dependente da continuidade da existência do corpo, por a morte não ser mais que uma vitória do tempo.

Entendendo o mesmo, magoado com a devastação que o tempo provoca nas coisas vivas, Pedro Cabral põe-se a fotografá-las obsessivamente para que elas sobrevivam à inevitável morte que as espera. Fá-lo com delicadeza, para que o pouco que de vivo elas ainda possuem não seja tocado. Fotografa, desde que nascem até que morrem, os cascos de madeira dos barcos de pesca que afanosamente vão e vêm, as chagas que o mar, o vento e a chuva neles abrem. Centra-se nelas, isola aquelas em que descobre um sentido: fissuras na matéria, pintura estalada em manchas coloridas, riscos alinhados em harmonia ou em desencontro. Enquadra e fotografa, criando figuras abstratas, que se sabe serem figurativas só pela matéria que as suporta e lhes dá forma e vida: as tábuas degradadas de um casco. Como numa pintura não figurativa, nelas ressalta o mistério que as fundamenta: a vertigem, o espanto que provocam, o esplendor que as anima, o encanto que delas emana.

A pintura abstrata é uma construção. Vasily Kandinsky (formado em direito e economia, professor na Universidade de Moscovo), quebra rotinas e põe-se a construir manchas de cor que não representam figuras mas apenas intensas «vibrações da alma», visões oníricas, imateriais e luminosas, «luminous, antimaterial dream visions». Tem um fraco pelo vermelho, que se lança direito aos olhos do observador, ao invés do azul, que se retrai (Lucy Flint, biografia do pintor, colecções Guggenheim ).

O artista de rua nova-iorquino José Parlá contrói «obras vibrantes explorando histórias, sobrepostas em múltiplas camadas, de cidades e de ambientes urbanos («multi-layered histories of cities and urban environments», exposição “Broken Language”, 8 de fevereiro a 28 de março 2013, Haunch of Venison, Londres). 

Sabendo por certo de um, Pedro Cabral cria visões oníricas com matéria. Não sabendo do outro, cria histórias, sobrepostas em múltiplas camadas, de coisas a que o mar deu origem num contexto urbano e natural a ele intimamente ligado. Como num e noutro caso, fá-lo com idênticas cores primárias, usando idênticas formas geométricas, idênticas linhas emaranhadas. Nestes três casos, surpreendem as coincidências, que terão por certo um sentido. E mais esse sentido intriga porque Pedro Cabral não pinta, fotografa.  

A abstração nas fotografias de Pedro Cabral é a desconstrução causada por um efeito de degradação, o que se verifica tanto nas imagens dos cascos como nas das rochas. No primeiro caso, é posto em evidência um drama em que o ser humano está implicado. No segundo caso, ressalta algo de semelhante, mas a que o Homem é alheio: o efeito que as forças erosivas da Natureza talham na pedra ao longo dos milénios. Em ambos os casos, é o olhar do fotógrafo que, interpelando essa mortífera degradação, como Deus a converte em coisa viva.

No que de figurativo existe nas fotografias que ele tira revela-se a mesma intensão. Está ela patente nos ícones pintados que candidamente extrai da madeira, do ferro ou do betão, como as figuras de proa dos barcos de pesca, a estrela, a cruz, o cravo, ou nos grandes murais de rostos angustiados do molhe leste do porto de pesca. Como certos grandes artistas que se exprimem por uma composição depurada e de fina sensibilidade, Pedro Cabral é um amante da vida, no que de mais simples e espontâneo ela tem.

Esse modo de amar é simbolicamente revelado numa esplêndida imagem do voo de gaivotas que se divertem, pelo simples gosto de viver, pairando no vento encanado de uma enseada junto da Papoa.

 

Ricardo Costa, 19 de fevereiro 2013

 

ARTIGO ILUSTRADO                                                                 Pedro Cabral, photographer

 

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